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O melhor lugar do mundo é aqui e agora


O melhor lugar do mundo é aqui e agora. (Dizia a música que eu ouvia).
... Aqui, onde a cor é clara
Agora, que é tudo escuro.


E mais eu não ouvi. Meus pensamentos gritaram em minha cabeça, chamando atenção para um monte de nulidades que nem sei quais eram.

Um dia desses, comi um pudim de leite. Hum, que delícia! Comi a primeira colher, perfeito. Comi a segunda, maravilhoso. Comi a terceira e não lembro mais o gosto que senti daí por diante. Só da última colherada, para a qual agucei o paladar e não deixei que um saborzinho sequer fugisse de mim. Tudo que comi entre a terceira colher e a última teve seu sabor sequestrado pelos meus pensamentos.

Sim, o melhor lugar do mundo é aqui e agora, mas talvez também seja o lugar mais difícil de se permanecer. Além de infinidades de estímulos externos, temos o nosso próprio pensamento a nos tirar do aqui e do agora, do presente existencial, do momento em que a vida acontece.

Dizem, algumas tradições milenares, que a Iluminação acontece quando estamos conscientes da totalidade do momento presente. De tudo que o compõem. Do toque da mais leve brisa no rosto, ao som do pássaro distante. Da cor do céu acima de nós ao ritmo da nossa respiração. Do perfume da flor que está ao lado ao resto do sabor que ficou do café de mais cedo. E de quando todas essas percepções se dão sem o filtro da mente, sem que sejam intermediadas pelos pensamentos, sem que sejam nomeadas. Tudo o que é necessário é a plena consciência do momento presente, do Eterno Momento Presente.

Ora, mas não falo aqui de Iluminação, falo da incapacidade de permanecer com a atenção no momento presente. Da inabilidade em controlar o fluxo de pensamentos que me leva para longe do Aqui e do Agora. Da “mente de gafanhoto” que pula de pensamento em pensamento, que salta de assunto em assunto e que me tira o foco do que ocorre diante dos meus sentidos.

Assim, durante a maior parte de meu tempo, ajo como um autômato, que reage ao mundo de forma automática e pobre no repertório de respostas, para que a minha mente se farte com todos os pensamentos com os quais se ponha em contato.

Minha mente, suspeito que a sua também, gosta de divagar, pula de pensamento em pensamento retirando-me do contato com a vida que flui ao meu redor. Minha mente gosta de contar histórias, as mais sem noção, as mais sem compromisso com a realidade e assim passo a imaginar tudo o que acontece a minha volta, na minha vida, na vida de outras pessoas. Travo diálogos imaginários, me vejo em situações improváveis, vivo quase que na total fantasia. Enquanto isso a vida transcorre ao meu redor – e dentro de mim – quase que imperceptível. E assim esvai-se o presente.

Minha mente, ao que parece, simplesmente ignora o presente e habita entre o passado e o futuro. Horas trazendo fatos do passado e se apegando a eles. Relembrando-os, remoendo-os, martirizando-se, sofrendo. A mente teima em não deixar o passado passar. Teima em eternizá-lo. Em trazê-lo para o presente e vivenciá-lo como se esse passado estivesse ocorrendo aqui e agora. Assim, sofro (um sofrimento real) por uma realidade inexistente. Inexistente nesse Aqui e Agora em que estou mas que a ele foi trazido por uma mente apegada ao passado.

Outras vezes é um futuro inexistente que minha mente insiste em construir. Não falo de planejamento, de definições de objetivos. Falo das mais diversas fantasias que a mente me traz, repletas de pensamentos que resultam em insegurança e medo. Por vezes são pensamentos prazerosos aos quais alimento para dar-lhes mais tempo em minha cabeça. Mas não importa se são pensamentos agradáveis ou aterrorizantes, eles são fantasiosos. E me retiram por completo do contato com o presente.

Quando a mente antecipa um futuro sombrio, não é só uma falta de contato com o presente que acontece. Meu modo de agir no Aqui e Agora é completamente influenciado por esses pensamentos. A começar pela ansiedade causada pela perspectiva de um futuro ameaçador; pela insegurança em se tomar as decisões que o momento presente exige, pois, toda decisão tomada no aqui e agora pode resultar naquele futuro que minha mente antecipou. E mais uma vez sou tomado por sentimentos reais resultantes de uma antecipação imaginária do futuro.

E assim, alternando entre um passado que já está lá atrás no tempo e um futuro que ainda não existe, minha mente me retira do Aqui e Agora e me inunda de sentimentos desconectados do momento presente, produzindo angústias desnecessárias para minha vida, me causando sofrimento real por algo que não mais existe ou que nunca vai existir tal qual imaginado.

E ao me ser retirado o Aqui e Agora, o momento presente, a hora e o lugar onde a vida acontece, como ouvir a música até o fim? Como sentir o sabor do doce em sua totalidade? Como agir em sintonia com as situações que me são apresentados no momento presente? Essas são perguntas que já trazem em si suas respostas, embora não seja simples de perceber isso.

Quando nos voltamos para as questões que envolvem o momento presente, e no momento presente focamos nossa atenção, aí as perguntas começam a ser superadas e não precisarão mais serem respondidas. Se minha atenção está na música, eu a escutarei até o fim. Se minha atenção estiver no doce, nenhum pensamento sequestrará seu sabor. Assim, se eu estiver consciente, deliberadamente consciente, do meu Aqui e Agora, nenhum passado me atormentará e nenhum futuro me paralisará. Passado e futuro estarão apenas a meu serviço. Um pelos aprendizados que obtive e outro para que eu me dê conta que a vida é um fluir.

E assim estarei livre para viver cada momento da forma com que cada momento me sensibiliza. Cada sentimento, cada emoção, cada pensamento, estarão alinhados e conectados com o que eu vivencio naquele instante.

Aí sim, posso sentir que O Melhor Lugar do Mundo É Aqui e Agora


Claudio Costa é Psicólogo
21 99156-6457

Foto: Karren Viana

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