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“O Sol há de brilhar mais uma vez A luz há de chegar aos corações...”


Hoje esses versos me mostraram como abordar um tema que há muito está me rondando e eu não conseguia encontrar uma forma clara de falar sobre ele. Eu já escrevi antes, a música tem o poder de me fazer entrar em contato profundo comigo mesmo.

Começando do começo. Num tempo atrás, tempo próximo, eu estava mergulhado em certezas. Daquelas certezas que você tem e que nada te convence do contrário. E que tudo confirma que você está certo. Tudo é muito lógico. Tudo é muito coerente.

Mas não era uma certeza boa. Era daquelas certezas que te faz sofrer. Que te deixa perdido. Que te arrasta pra depressão. Que te tira a vontade de seguir adiante. Certezas assim costumam ser muito sólidas.

Não havia margens para dúvidas. Os acontecimentos se sucediam em minha frente. Um a um. Consecutivamente os pontos iam se ligando. Tudo estava lá...

Bem, preciso ser mais honesto nessa descrição dos eventos. Alguns fatos aconteceram. Fatos que me desagradaram um pouco. Talvez dois ou três fatos. Mas a minha certeza envolvia uma longa narrativa de “acontecimentos”. E esses “acontecimentos” é que davam todo o suporte para minha convicção. Mas eles não aconteceram na minha frente, e nem soube deles por alguém. Eles foram totalmente criados por minha fantasia.

Naquela hora eu não me dava conta que fantasiava. Apenas “ligava os pontos” de forma lógica e coerente. Mas a lógica e a coerência estavam a serviço da minha fantasia e não da realidade. Foram dias de tormento, de sofrimento e de escuridão. Até que uma coisa aconteceu. Uma conversa. Uma simples conversa. Uma conversa em que os acontecimentos reais foram trazidos à luz e que derrubaram toneladas de fantasias, de lógicas e de coerências.

Ah, mas como a realidade real poderia se impor à minha realidade criada? Isso ainda era uma questão séria. Eu fiquei apegado à realidade que eu criara. Era muito difícil abrir mão dela. Ela me fazia sofrer, mas era tão coerente, tão viva! E eu passei tanto tempo alimentando-a, cuidando dos seus detalhes, acreditando piamente nela. Então como deixá-la ir e me contentar apenas com os fatos que não me traziam qualquer resposta emocional? Talvez o alívio da dor, do sofrimento, das incertezas. Mas acho que eu já me habituava com essas emoções negativas. Já era quase um vício mental e emocional: cada dia aumentar mais um pouco a fantasia e sofrer muito com isso.

E num determinado momento, enquanto pensava sobre isso, eu lembrei de um fato que aconteceu comigo há muitos anos e do qual nunca mais tinha lembrado.

Eu viajava do Rio de Janeiro para Porto Alegre, de ônibus. Já era madrugada avançada e eu não conseguia dormir. Pelos meus cálculos eu estava cruzando a Rodovia Régis Bitencourt – a “Rodovia da Morte” – e lembrava do quanto aquela estrada era perigosa.

A escuridão era total. Os faróis do ônibus só iluminavam a estrada à frente e quase nenhuma luz atingia as laterais da estrada. Apenas o suficiente para deixar visível a cruz fincada no acostamento que lembrava aos motoristas que naquele ponto alguém morreu em um acidente. E enquanto o ônibus andava, diversas cruzes iam surgindo e desaparecendo no caminho. Eu já estava impressionado e assustado com o número de mortes naquela rodovia assassina. Eu não conseguia dormir na presença da morte. E assim foi até os primeiros raios da manhã começarem a jogar um pouco de luz na estrada. Fiquei mais tranquilo a escuridão fora embora.

Mas somente muito tempo depois foi que me dei conta que não havia mais cruzes no caminho, mas sim placas de sinalização. E por detrás dessas placas, existia uma estrutura para suportá-las. Uma estrutura em forma de cruz! A morte nunca me acompanhou naquela estrada. Só estava em minha cabeça. E a certeza da presença da morte era tão grande que quase senti o toque de sua mão na minha.

Nunca mais lembrei desse acontecido. Só agora, em que não conseguia abrir mão de minhas fantasias, mesmo com a realidade escancarada na minha frente. Essa lembrança foi um presente meu pra mim mesmo.

Nessa mesma hora lembrei das palavras de uma grande amiga e mestra que uma vez nos disse que na grande maioria das vezes, a fantasia é muito pior do que a realidade. Essa é uma verdade que sempre falo para meus pacientes. Sempre. Mas que tinha esquecido de dizer pra mim mesmo.

Termino esse texto trazendo mais pedacinho da música com que o iniciei.

“...Quero ter olhos pra ver
A maldade desaparecer...”

Pra se viver a realidade e não a fantasia, é preciso querer ter olhos pra ver. É preciso um esforço consciente para isso. Se não, seremos atropelados pelas nossas próprias fantasias e pelas fantasias do outros com os quais temos contato.


Claudio Costa
Psicólogo
21 99156-6457

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