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À Folha de S. Paulo, Wilson Lima reconhece que só tem dinheiro para pagar salários de abril


Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo na noite desta sexta-feira, 10, o governador Wilson Lima (PSC) revela que o Estado só tem recursos para pagar a folha de pessoal de abril (que será paga até dia 5 de maio) e que sua equipe econômica prevê uma queda de 25% na arrecadação até final deste ano. Anteriormente, Wilson dizia que seria de 40%.

Sobre o impacto do coronavírus na estrutura física, ele reconhece, na entrevista, que a capacidade de atendimento do Hospital Delphina Aziz, considerado referência para o tratamento da Covid-19 no Amazonas, esgotou-se e que novos pacientes com sintomas da doença serão remanejados para outras unidades de saúde da capital.

De acordo com Wilson Lima, faltam leitos de UTI, respiradores mecânicos e pessoal para atender a demanda crescente de pacientes com os sintomas da Covid-19. O Amazonas, até esta sexta-feira, 10, somava 891 casos positivos e 50 mortes.

O Ministério da Saúde enviou uma técnica para acompanhar a situação crítica no Estado e três especialistas chegam a Manaus na segunda-feira, 13,  para reorganizar o atendimento na capital.

Leia a entrevista na íntegra:

Um profissional do hospital de referência no atendimento ao coronavírus em Manaus, o Delphina Aziz, afirma que o sistema de saúde na capital colapsou. Como avalia?

Pedi um levantamento da situação no Delphina. Eu tenho cinco leitos disponíveis, mas eles são de retaguarda e não estavam funcionando por conta da falta de profissionais. Mas até agora nenhum paciente acometido por covid ou com estado agravado da doença ficou sem atendimento no estado. A gente deve chegar a um limite de colapso, sim, mas por enquanto a gente ainda tem onde tratar as pessoas. Estamos distribuindo na rede esses pacientes acometidos por covid. E essa falta de profissionais vamos suprir com contratação imediata, que já programamos com alunos de medicina, enfermagem e farmácia, que estão no último ano e vamos adiantar a sua formatura.

Então o problema do estado é mais a falta de pessoal?

Eu tenho os dois problemas. Estou esperando respiradores para montar as UTIs e também tenho falta de pessoal. Em algumas unidades não pude ampliar o atendimento porque dependo do remanejamento de pessoal. E eu tenho outro detalhe. O Delphina é uma PPP conjugada com uma OS. E é a OS que providencia os profissionais, não o estado. Estava conversando com a direção da OS e eles me relataram dificuldade na contratação de pessoal.

Em quanto tempo consegue resolver a falta de pessoal ?

Na segunda (13) devemos ter a entrada dos formandos da UEA (Universidade Estadual do Amazonas) e devo estar com o contrato pronto para chamar temporários do sistema de saúde.

O senhor cogita convocar médicos e outros profissionais?

Antes precisamos saber se temos médicos no estado do Amazonas para contratar. É uma mão de obra limitada. Eu tenho profissionais da área de saúde aprovados no concurso do Corpo de Bombeiros e estamos estudando a possibilidade de antecipar a contratação desse pessoal. São médicos intensivistas e técnicos, só que temos que saber se vamos conseguir pagar essas pessoas. Não só no período da crise, mas depois disso. Outra possibilidade é fazer a contratação temporária desses aprovados.

Para não transformá-los em efetivo permanente?

Sim, por conta da nossa incerteza futura. Eu não sei como vão ficar minhas finanças. Estou fazendo uma previsão para maio mas estamos trabalhando com parcimônia. Todas as ações que implicam custos para o estado, estamos avaliando de forma criteriosa porque eu não vou fazer compromisso que não posso honrar amanhã.

Então o senhor não acha que já colapsou o sistema do Amazonas?

A gente está pertinho de colapsar, depende da evolução dos casos. No Delphina eu não tenho mais condições de receber casos agravados de covid, mas estamos trabalhando para aumentar a capacidade. Tenho leitos clínicos e de UTI na rede também para o atendimento. O meu grande problema é com leitos de UTI. Estamos preparando um hospital com 400 leitos para receber pacientes. Mas por enquanto estamos recebendo os doentes em toda a rede. Há um protocolo nas unidades de alta complexidade para mandar essas pessoas para isolamento nas salas rosas.

Os casos no Amazonas se concentram na capital?

Sim, mas há pelo menos 12 municípios com casos confirmados. Eles começaram com as pessoas com maior poder aquisitivo, mas começa agora a ir para bairros de periferia e isso nos preocupa muito. Vai crescer de forma exponencial. A nossa maior preocupação no momento é que o covid chegue nas aldeias indígenas e temos tentado ao máximo retardar a chegada do vírus ao interior, mas já temos seis mortes registradas.

O que falta mais: recursos do governo federal ou equipamentos?

Nossa grande dificuldade é a aquisição de respiradores. Na segunda devem chegar 30 respiradores do Ministério da Saúde e estamos adquirindo outros 180. Devem chegar mais 33 nos próximos dias e estamos em tratativas com o Ministério da Saúde para a chegada de 150. Estamos catando respiradores, comprando em SP, SC, nos EUA, para fazer com que cheguem.

O governo federal vai deslocar equipes para o Estado?

Temos conversado. Há uma técnica já atuando aqui no estado e na segunda chegam três especialistas para o reordenamento do fluxo para que haja o apoio à gestão, para termos clareza sobre como administrar a rede nesse momento de crise. Hoje tenho pacientes no hospital de referência mas distribuídos na rede. Vamos ver como reordenar esse fluxo e ver como vai funcionar.

O distanciamento social não pegou em Manaus?

Temos muita dificuldade em manter as pessoas em casa. São duas situações delicadas. O primeiro é saúde e evitar que o vírus se propague, o outro são as atividades econômicas, porque muita gente comprometeu a única fonte de renda. Em alguns bairros, as pessoas não entenderam a gravidade do assunto. Temos feito campanhas e coloquei as forças de segurança nas ruas, para multar o comércio não essencial aberto e coibir a presença de pessoas nas ruas, mas muita gente tem desrespeitado.

O senhor cogita proibir as pessoas de saírem de casa?

A gente entende que precisamos mostrar a gravidade da situação, mas queremos evitar conflitos. Os trabalhadores informais estão em um momento de grande aflição, nosso objetivo não é ir para o enfrentamento, de prender ou agredir alguém. Mas trabalhar de maneira didática e de orientação à população.

Bolsonaro saiu para passear nesta sexta (10) em Brasília. Ele é um garoto-propaganda do fim do isolamento?

Não vou comentar. Estou preocupado com a situação do Amazonas e vou continuar seguindo as recomendações do Ministério da Saúde e da OMS. Não vejo outro caminho para a gente quebrar essa cadeia de transmissão do que o distanciamento social, pelo menos não se tem outro caminho comprovado. os casos de sucesso mundo afora é do aumento da restrição e do isolamento das pessoas. Estamos otimistas com a cloroquina, mas ainda não temos a comprovação da eficácia. Precisamos de uma amostragem maior para saber se funciona em todo mundo, porque a cloroquina tem efeitos colaterais.

O Congresso discute a recomposição de perda de ICMS para os estados. Como isso afeta o seu estado?

Tem que ter ajuda do governo federal. Se a gente não tiver ajuda, a nossa situação será pior ainda. Eu terei uma perda global de 25% da receita até o fim do ano. A minha maior perda será em maio e estou tentando encontrar caminhos para fazer o pagamento da folha de servidores e manter o mínimo de serviços funcionando para que saúde e segurança pública continuem funcionando. Preciso ter a garantia de que vou receber o FPE do ano passado, para que a gente dê incentivo ao empresariado para que não quebre ou demita o mínimo possível.

O senhor tem dinheiro para pagar a folha até quando?

Hoje eu tenho dinheiro até abril, não sei como será maio. Estou fazendo uma ginástica para garantir o pagamento dos servidores, é a minha prioridade. Mas preciso de ajuda para garantir o pagamento de salários. Temos que ter pressa, era algo para ter sido resolvido ontem.


Fonte: Folha de São Paulo
Foto: Secom

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